The Crossing

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Estou neste momento a ler The Crossing – My journey to the shattered heart of Syria, um livro em que Samar Yazbek (n. 1974) relata três viagens feitas clandestinamente à Síria entre 2012 e 2013. Samar é uma ativista (sobretudo pela liberdade de expressão e pelos direitos das mulheres e crianças), jornalista e escritora síria forçada ao exílio desde 2011 pelo regime de Bashar al-Assad. A guerra, desencadeada pela agressiva e sangrenta reação de Bashar às manifestações inicialmente pacíficas contra o regime e a favor de um estado democrático, continua a matar e deslocar inocentes todos os dias.

No livro tenho encontrado relatos impressionantes sobre o que Samar foi testemunhando nos seus regressos clandestinos à terra natal, sobretudo relativos ao dia a dia dos cidadãos que têm vindo a lutar ininterruptamente pela sua sobrevivência e para manter vivo o sonho de ter um país livre, democrático e em paz. Relatos que embora a mente se recuse a aceitar como verídicos, num primeiro momento, são autênticos e espelham o sofrimento e a destruição material e imaterial que vigoram no território sírio. Por entre os testemunhos relativos às repugnantes atrocidades cometidas por diferentes atores, Yazbek tem passagens emocionantes, verdadeiramente demonstrativas da bondade humana. Outras representam não só momentos de partilha de cariz mais pessoal como também atestam o estilo da sua escrita, como comprova o seguinte excerto, referente à segunda passagem da escritora da Turquia para a Síria através das montanhas Reyhanli.

“Of our band of twenty, I was the only woman. Three traffickers accompanied us, and among the men who had just arrived I noticed the Yemeni and the Saudi who had been on my flight from Istanbul to Antakya. They looked ready for action. I moved towards them, keeping a cautious distance away, still hoping to eavesdrop on their conversation. For a moment I wondered about saying something to them, like, ‘What are you doing in my country?’ but I remained silent. The past two years had taught me to keep quiet. Silence in an opportunity to give meaning to the things around us, to watch and reflect. It gives things the chance to express themselves; even if it’s not without ambiguity, silence often creates the space for meaning to emerge.”

Hey, that’s no way to say goodbye

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Hineni, hineni
I’m ready, my lord.

O poeta, escritor, compositor e cantor canadiano (n. 1934) deixou-nos fisicamente esta semana, com uns bonitos 82 anos de idade. Passou os últimos tempos de forma calma na sua casa em LA, ainda a escrever e com a consciência de que tinha recentemente concluído um dos seus melhores álbuns, You Want it Darker. Apesar de ter declarado no mês passado que estava pronto para morrer, não há boas formas de dizer adeus.

So long Mr. Cohen.

Shut up kiss me

A Angel Olsen passou ontem pelo programa do Stephen Colbert, onde apresentou Shut Up Kiss Me. A música faz parte do álbum My Woman, que sai no final desta semana. A julgar pela amostra, não só pela música em si mas também pelo vídeo que anda por aí desde final de junho, a norte-americana terá alargado horizontes e o novo álbum poderá ser uma agradável surpresa.

Murphy is playing at my house

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Criar uma playlist é sempre um processo engraçado, de tal modo que há uns tempos fiz uma com músicas que me acompanharam durante o desenvolvimento da tese. Também não é mau para se evitar ou ir adiando tarefas definitivamente mais importantes que o divertido ato de criar uma playlist.

Porque não falta muito para James Murphy, Nancy Wang, Al Doyle e companhia visitarem as margens do rio Coura; porque vai ser o acontecimento do ano cá no “jardim da Europa à beira-mar plantado” no que diz respeito à música; porque a excitação começa a fazer-se sentir, pelo menos cá em casa; porque esta é a banda do século (até nem sou eu que o digo); porque “aquele” início da Tribulations continua a aumentar o meu batimento cardíaco de forma abrupta; porque a Home vai continuar a arrepiar-me over and over again; porque qual figura bíblica morreram e realizaram um funeral magnífico, no Madison Square Garden, apenas para ressuscitarem um par de anos depois; porque de momento tenho de tratar do meu futuro profissional; por muito mais, fiz uma playlist com músicas dos LCD Soundsystem.

Renato e a orientação para o marketing

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A adoção de princípios de marketing por parte de clubes de futebol é uma realidade há bastante tempo. Ao adquirir os direitos desportivos e comerciais de Renato Sanches, o Bayern de Munique sabia perfeitamente que estava a contratar um jogador com um potencial muito grande. Dentro e fora de campo. Renato tem uma imagem diferente, não é o típico jogador de futebol com sobrancelhas cuidadas, que vai ao cabeleireiro todas as semanas e que aplica gel, brincos e outros adereços reluzentes. Renato tem uma imagem muito natural, descontraída, descomplexada, diferente do que é habitual no futebol. E isso tem impacto. A forma de estar do Renato em campo, sempre a pedir a bola, de cabeça levantada, peito para a frente a correr com convicção mas despreocupado, sem passes para trás e para o lado, é algo que apaixona qualquer observador de futebol e contribui decisivamente para empolgar os adeptos. O clube bávaro não tem perdido tempo e sempre que a seleção portuguesa joga coloca nas redes sociais – antes, durante e após o jogo – publicações com o português. À semelhança do que tem feito, aliás, com os seus restantes jogadores presentes em França. De acordo com declarações de uma das responsáveis de marketing do Bayern ao DN “este caso tem sido um sucesso. No jogo com a Croácia tivemos números muito altos. A sua forma de jogar parece convencer os adeptos e isso vê-se na interação que tiveram connosco nas redes sociais”. De acordo com o mesmo texto os números de Renato nas redes sociais do clube são apenas ultrapassados pelo alemão Jerome Boateng.

A compatibilidade e aplicabilidade do conceito de orientação para o marketing no contexto das artes e cultura tem sido tema de debate na literatura, principalmente no que respeita à sua influência na variável produto (sugere-se leitura de Botti, 2000; Boorsma, 2006; Butler, 2000; Colbert, Quadrado & Natel, 2003; Caust, 2003; Fillis, 2006; Hill et al., 2006; Hirschman, 1983; Kotler & Scheff, 1997; Voss & Voss, 2000). Muito sucintamente, enquanto alguns autores defendem que o conceito é incompatível com as artes, basicamente porque o artista cria para se expressar e não para obter sucesso comercial, outros referem que podem ser compatíveis, desde que a orientação para o marketing não coloque em causa a integridade do artista/organização, isto é, desde que não tenha influência no produto/programação.

Num exercício um pouco forçado, de puro entretenimento e nada rigoroso, estabeleço aqui um paralelo entre estas duas situações. Muitos clubes de futebol são certamente orientados para o marketing. Trabalham dados que recolhem e vão introduzindo alterações e melhorias de acordo com o conhecimento gerado – nos preços dos bilhetes, no conforto das infraestruturas, na comunicação, na relação com os adeptos, na hospitalidade do staff, no comportamento do speaker em dia de jogo and so on. O que se verificará em relação às aquisições de passes de jogadores? Serão consideradas, no momento de avaliação de alternativas para reforço de um plantel, apenas as características técnicas e desportivas? As potencialidades do atleta afetar outras medidas de desempenho, extra-futebol, serão um fator decisivo? Até que ponto irá a sua influência? E as preferências dos adeptos?

Playlist para o verão

A Sara está no Brasil, por motivos profissionais, e há uns tempos preparou uma playlist tropical para a página Sunday Morning. Nada melhor para acompanhar os dias quentes que, à partida, vamos ter nos próximos tempos. Pelo menos teoricamente, uma vez que o verão está oficialmente aí à porta.

“A segunda edição do Sunday Morning é 100% brasileira. O intuito era fugir do Brasil do cliché, da bossa nova, MPB, chorinho e que tais. Que bom cliché, né? Fossem todos assim… Mas o objetivo era mesmo ir a um Brasil recente, jovem até. Estes 40 minutos de música passam por vários pontos do país. A viagem começa em Curitiba com Lemoskine de Rodrigo Lemos (que teve tour em Portugal no mês passado). Passámos em São Paulo com O Terno, The Outs e Maglore. Fazemos uma pequena paragem em Goiânia com os já veteranos Boogarins, turistamos ainda pela “Cidade Maravilhosa” com Os Dentes e o menino coqueluche do MPB Castello Branco. Acabamos onde tudo começou – Curitiba – com Pietro Domiciano e com uma ode ao progresso (ou regresso) do Brasil de hoje. No meio da viagem há também espaço para os (infelizmente) extintos em 2015 Simonami. Boa manhã de domingo num Brasil ainda a dormir!”

The war on drugs is (almost) over

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“No início dos anos 70 o presidente norte-americano Richard Nixon lançou três ofensivas simultâneas: arrumar a guerra do Vietname, arrumar a imprensa e os adversários políticos e abrir uma nova frente – a guerra à droga.
____Perdeu as três batalhas. (…) A guerra à droga (…) levou bastante mais tempo. Já não viveu para assistir a esta última derrota. Foram precisos mais de 30 anos para se começar a perceber que a militarização do combate ao tráfico de droga tinha feito mais mal que bem.
____A 19 de abril a Assembleia-Geral da ONU organizou uma sessão especial sobre a droga onde a perspetiva da despenalização levou a melhor sobre o combate militarizado. Já antes diversos líderes latino-americanos, a começar pelo antigo presidente brasileiro Fernando Henrique Cardoso, tinham pedido uma mudança de estratégia centrada na despenalização. E o Uruguai, ainda durante a presidência de Mujica, tomara a iniciativa de despenalizar o consumo de canábis.
____De resto, bastava olhar para duas experiências contraditórias, a mexicana e a portuguesa, para tirar algumas conclusões. No México a militarização do combate à droga (2006/2012), levada a cabo durante a presidência de Peña Nieto, saldou-se por um banho de sangue (100 mil mortos) e poucos ou nenhuns resultados práticos. Em Portugal, a despenalização do consumo e a aposta na reabilitação, desde 2001, reduziu o consumo, salvou milhares de vidas (menos mortes por overdoses e infeção do vírus da sida) e recuperou milhares de pessoas para uma vida normal. Não eliminou de vez a criminalidade ligada à droga mas tirou-lhe boa parte da violência e do sangue.
____Não se trata de ser ingénuo e de pensar que a descriminalização resolve tudo. A droga é um problema complexo e com múltiplas vertentes. Mas a via da despenalização controlada parece bastante mais promissora que a da repressão cega”.

– Rui Cardoso, in Courrier Internacional, n.º 244, junho de 2016

Rui Cardoso dedica parte do editorial do Courrier Internacional à derrota da campanha war on drugs, iniciada em 1971 por Nixon e seguida noutros pontos geográficos. O combate à droga, que é o destaque da edição de junho, esteve recentemente em discussão na sede da ONU e curiosamente, há cerca de três semanas atrás, em viagem, um israelita questionou-me acerca da descriminalização introduzida em Portugal no ano de 2001. Não escondo que a sensação de falar acerca da decisão pioneira e progressista, que resultados tão positivos trouxe, foi ótima. Foi no entanto uma sensação efémera pois ainda hoje, em pleno 2016, as drogas continuam a tirar demasiadas vidas e continuam a existir governantes sem a coragem de tratar o consumo e a posse de drogas como um problema social e de saúde em vez de um problema judicial – digo isto com a consciência de que em determinados contextos esta abordagem poderá não ter efeitos práticos idênticos. Na altura, como agora ao ler o editorial de Rui Cardoso, lembrei-me deste texto do Guardian.