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Whites of Their Eyes

Mattiel, o álbum de estreia Mattiel Brown, tem boas malhas. A artista de Atlanta é também designer – segundo informações privilegiadas, há uns tempos andava a criar anúncios de vídeo e ilustrações para o Mailchimp  – e isso nota-se nos materiais visuais que vão saindo, entre os quais este vídeo em que alguns pormenores me transportam para Paris, Texas. Vai estar no Porto no início de junho.

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Una sonrisa exactamente así

Por sugestão de uma amiga costa-riquenha, que já me tinha posto em contacto com os belos contos de Augusto Monterroso (este é o mais famoso), fui ler um texto chamado Una sonrisa exactamente así. O texto é do argentino Eduardo Sacheri, foi publicado no El Gráfico, e o tema é… o Maracanazo. Não vou arriscar a dizer que é o texto mais bonito que alguma vez li, porque realmente não sei se o é, nem tão-pouco isso interessa, mas que o texto é realmente lindo, lá isso é! De tal forma que me senti na obrigação de partilhar o início, para que mais gente possa dele usufruir.

Hasta ahora sonreíste siete veces. Por supuesto que las tengo contadas. Hace un rato increíblemente largo que vengo mareándote con mis palabras, por estrategia o por desesperación, y verte sonreír es – me parece – la única huella que puede llegar a indicarme si voy bien o si estoy perdido.

La primera fue la más fácil. Las difíciles fueron desde la segunda en adelante. Tu primera sonrisa fue automática, impersonal. Fue un reflejo de la mía. Casi un acto de imitación involuntaria. Un tipo joven se acerca a tu mesa, se te planta adelante y te dice “hola” mientras sonríe y vos, que estabas absorta mirando hacia fuera, hacia la calle, volvés de tu limbo y contestás aquella sonrisa con una igual, o parecida.

A partir de entonces las cosas se complicaron. Fue mucho más difícil conseguir que soltaras la segunda. Porque este desconocido que era – que sigo siendo – yo, sin dejar de sonreír, te pidió permiso para ocupar la silla vacía de tu mesa. Unos minutos –prometí –, no demasiados. Un rato, porque tenía que decirte algo. Entonces de tu rostro se fue aquella sonrisa, la primera, la del reflejo o el saludo, la que era nada más que un eco de la mía. Y en su lugar quedaron la extrañeza, la incertidumbre, las cejas un poco fruncidas, un ápice de temor. ¿Qué quería este desconocido? ¿De dónde lo habían sacado?

Neste link está o texto original. Vão lá espreitar porque vale bem a pena!

Wildly Idle (Humble Before the Void), Hand Habits.

Acho que nunca tinha ouvido tanta música bonita como em 2017. E o álbum de estreia de Hand Habits – Meg Duffy é o nome da simpática compositora e guitarrista que tem acompanhado Kevin Morby e já trabalhou com Weyes Blood – é certamente um dos mais belos. Wildly Idle é um álbum encantador, aconchegante, que nos faz sonhar acordados. O seu ritmo embala, a voz é doce, a guitarra melódica, as diferentes camadas de som completam-se. É um trabalho muito rico, musical e emocionalmente, que arranca e segue em velocidade de cruzeiro até ao fim, sem pressas, porque isto é para saborear com calma, a cada segundo que passa. E de facto o tempo parece parar e tudo à nossa volta ficar suspenso durante as treze músicas do álbum. Meg Duffy consegue com Wildly Idle aquecer-nos por dentro, dar-nos uma sensação de conforto e paz interior, qual chá de limão com mel num gélido fim de tarde de inverno.

Obrigado Sara R pela sugestão. Nunca falhas!

Sonidos del Distrito

Há sons que nos marcam e ficam para sempre associados a certas experiências, fases da vida, pessoas, lugares.

Da minha experiência na Cidade do México (CDMX) recordo obviamente muitos dos sons presentes nesta curta de Nanda Fernandez Brédillard. O som ensurdecedor do “carrito de tamales”, que impossibilitava qualquer conversa, a gravação de vendedores dos mesmos – “hay tamales, oaxaquenos, tamales calientitos” – ou dos compradores de eletrodomésticos e colchões vão por mim ser recordados por muitos e muitos anos.

Há no entanto um outro que vou para sempre associar à CDMX, que não está nesta curta, embora esteja representado. O da jovem de sapatilhas pretas de desporto, que vendia água Bonafont a 10 pesos na estação de Tacubaya com a filha, de uns dois/três anos ao seu lado. Filha ou irmã mais nova, não sei. Sempre que ia de metro para o trabalho a rotina era a mesma: 3 minutos a pé até à estação de Chilpancingo; tirar um livro da mochila; passar por Patriotismo; chegar a Tacubaya para trocar da linha “café” para a laranja; e lá estava ela, no final do primeiro lanço de escadas, do lado direito, mesmo antes de entrar na zona das comidas.

“Agua Bonafont! Te vale diez pesos, agua Bonafont”. Sempre a mesma voz, sempre o mesmo olhar sério, endurecido, a transparecer uma força interior muito grande; olhar que é raro ver numa pessoa tão nova; olhar de quem teve de agarrar a vida com unhas e dentes; olhar destemido. Nunca lhe comprei nada. Mas seguramente nunca me esquecerei da frase cantada daquela jovem de olhar determinado.

SONIDOS DEL DISTRITO from NANDA FERNANDEZ BREDILLARD on Vimeo.

nota: no título “distrito” vem de Distrito Federal (DF), onde naturalmente se encontra a capital do país. Apesar de uma forte operação de rebranding levada a cabo para a cidade ser referida como Ciudad de Mexico ou CDMX, o mais comum é o mexicano referir-se à mesma como DF ou apenas México.

Das Taipas para o Mundo

A versão em papel do jornal Reflexo tem uma rubrica intitulada “Das Taipas para o Mundo”, na qual se dá a conhecer casos de taipenses que saíram da bonita vila vimaranense rumo a outras paragens. Na edição de julho foi a minha vez. Deixo aqui a transcrição do texto.

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Toda a minha vida vivi nas Caldas das Taipas, “terra onde a lua fala”, com apenas dois interregnos – primeiro na Dinamarca, onde estive a estudar por um semestre, e depois na Bósnia, onde estive um mês e meio num projeto de voluntariado. O destino, ou melhor, o programa Inov Contacto, deu-me recentemente a oportunidade de me deslocar até um enorme e díspar país da América Central, o México.

Encontro-me então na Cidade do México desde o início do ano a trabalhar numa agência de marketing digital, na qual crio e faço a gestão de campanhas no Google AdWords para as Américas. Por muito que goste do que faço não vou maçar o caro leitor com questões relacionadas com keywords, extensões de anúncios, taxa de cliques ou conversões.

O México é um país culturalmente riquíssimo, de uma beleza extraordinária, com um povo muito acolhedor, mas é também uma nação de contrates, de sociais a climáticos, e de problemas políticos e de segurança graves. Apenas tive a oportunidade de estar em 6 dos 31 estados mexicanos – à hora que lhes escrevo preparo-me para ir conhecer o sétimo, Quintana Roo – e apesar de todas as diferenças há um elemento em comum em todos eles: a amabilidade e abertura por parte das pessoas.

Viver na Cidade do México é uma experiência incrível, capaz do melhor e do pior. Vivem cá cerca de 20 milhões de pessoas, coisa pouca, e o crescimento da cidade claramente não foi planeado. Há um desrespeito estúpido pelas regras de trânsito, pois cá não há aulas de código ou condução, e atravessar uma passadeira é um desafio enorme! A cidade não descansa e o seu ritmo, aliado com a altitude, poluição e desordenamento, deixam qualquer um de rastos. Em condições normais é impossível circular de carro em horas de ponta – utilizo bicicleta ou metro (alguém falou em caos?) – mas quando chove a situação atinge o impensável. Já me aconteceu mais que uma vez ter de esperar uma a duas horas para sair do escritório porque as estradas se transformaram em autênticos rios.

No entanto, a cidade compensa largamente com outras questões, nomeadamente a nível cultural e social. Rezam as crónicas que é a cidade do mundo com mais museus e desde que cá estou tenho a sensação (bem real) de que estou constantemente a perder eventos super interessantes – 24h por dia são claramente insuficientes.

A facilidade com que se conhece pessoas novas e se trava amizades facilita imenso a estadia cá. Há uma grande comunidade estrangeira, principalmente na jovem e bonita zona onde vivo, La Condesa. O país é lindo e a nível social é muito interessante de analisar. Qualquer pequena coisa do quotidiano, como uma ida para o trabalho de metro, dava uma rica curta-metragem. Apesar das saudades, naturais, de família e amigos, estou “muy a gusto” e verdadeiramente encantado com o México.

The Crossing

thecrossing

Estou neste momento a ler The Crossing – My journey to the shattered heart of Syria, um livro em que Samar Yazbek (n. 1974) relata três viagens feitas clandestinamente à Síria entre 2012 e 2013. Samar é uma ativista (sobretudo pela liberdade de expressão e pelos direitos das mulheres e crianças), jornalista e escritora síria forçada ao exílio desde 2011 pelo regime de Bashar al-Assad. A guerra, desencadeada pela agressiva e sangrenta reação de Bashar às manifestações inicialmente pacíficas contra o regime e a favor de um estado democrático, continua a matar e deslocar inocentes todos os dias.

No livro tenho encontrado relatos impressionantes sobre o que Samar foi testemunhando nos seus regressos clandestinos à terra natal, sobretudo relativos ao dia a dia dos cidadãos que têm vindo a lutar ininterruptamente pela sua sobrevivência e para manter vivo o sonho de ter um país livre, democrático e em paz. Relatos que embora a mente se recuse a aceitar como verídicos, num primeiro momento, são autênticos e espelham o sofrimento e a destruição material e imaterial que vigoram no território sírio. Por entre os testemunhos relativos às repugnantes atrocidades cometidas por diferentes atores, Yazbek tem passagens emocionantes, verdadeiramente demonstrativas da bondade humana. Outras representam não só momentos de partilha de cariz mais pessoal como também atestam o estilo da sua escrita, como comprova o seguinte excerto, referente à segunda passagem da escritora da Turquia para a Síria através das montanhas Reyhanli.

“Of our band of twenty, I was the only woman. Three traffickers accompanied us, and among the men who had just arrived I noticed the Yemeni and the Saudi who had been on my flight from Istanbul to Antakya. They looked ready for action. I moved towards them, keeping a cautious distance away, still hoping to eavesdrop on their conversation. For a moment I wondered about saying something to them, like, ‘What are you doing in my country?’ but I remained silent. The past two years had taught me to keep quiet. Silence is an opportunity to give meaning to the things around us, to watch and reflect. It gives things the chance to express themselves; even if it’s not without ambiguity, silence often creates the space for meaning to emerge.”

Hey, that’s no way to say goodbye

cohenleonard

Hineni, hineni
I’m ready, my lord.

O poeta, escritor, compositor e cantor canadiano (n. 1934) deixou-nos fisicamente esta semana, com uns bonitos 82 anos de idade. Passou os últimos tempos de forma calma na sua casa em LA, ainda a escrever e com a consciência de que tinha recentemente concluído um dos seus melhores álbuns, You Want it Darker. Apesar de ter declarado no mês passado que estava pronto para morrer, não há boas formas de dizer adeus.

So long Mr. Cohen.