Sonidos del Distrito

Há sons que nos marcam e ficam para sempre associados a certas experiências, fases da vida, pessoas, lugares.

Da minha experiência na Cidade do México (CDMX) recordo obviamente muitos dos sons presentes nesta curta de Nanda Fernandez Brédillard. O som ensurdecedor do “carrito de tamales”, que impossibilitava qualquer conversa, a gravação de vendedores dos mesmos – “hay tamales, oaxaquenos, tamales calientitos” – ou dos compradores de eletrodomésticos e colchões vão por mim ser recordados por muitos e muitos anos.

Há no entanto um outro que vou para sempre associar à CDMX, que não está nesta curta, embora esteja representado. O da jovem de sapatilhas pretas de desporto, que vendia água Bonafont a 10 pesos na estação de Tacubaya com a filha, de uns dois/três anos ao seu lado. Filha ou irmã mais nova, não sei. Sempre que ia de metro para o trabalho a rotina era a mesma: 3 minutos a pé até à estação de Chilpancingo; tirar um livro da mochila; passar por Patriotismo; chegar a Tacubaya para trocar da linha “café” para a laranja; e lá estava ela, no final do primeiro lanço de escadas, do lado direito, mesmo antes de entrar na zona das comidas.

“Agua Bonafont! Te vale diez pesos, agua Bonafont”. Sempre a mesma voz, sempre o mesmo olhar sério, endurecido, a transparecer uma força interior muito grande; olhar que é raro ver numa pessoa tão nova; olhar de quem teve de agarrar a vida com unhas e dentes; olhar destemido. Nunca lhe comprei nada. Mas seguramente nunca me esquecerei da frase cantada daquela jovem de olhar determinado.

SONIDOS DEL DISTRITO from NANDA FERNANDEZ BREDILLARD on Vimeo.

nota: no título “distrito” vem de Distrito Federal (DF), antiga denominação da CDMX. Apesar de uma grande e bem visível operação de rebranding levada a cabo nos últimos anos, o mais comum é o mexicano referir-se à CDMX como DF ou apenas México.

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Das Taipas para o Mundo

A versão em papel do jornal Reflexo tem uma rubrica intitulada “Das Taipas para o Mundo”, na qual se dá a conhecer casos de taipenses que saíram da bonita vila vimaranense rumo a outras paragens. Na edição de julho foi a minha vez. Deixo aqui a transcrição do texto.

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Toda a minha vida vivi nas Caldas das Taipas, “terra onde a lua fala”, com apenas dois interregnos – primeiro na Dinamarca, onde estive a estudar por um semestre, e depois na Bósnia, onde estive um mês e meio num projeto de voluntariado. O destino, ou melhor, o programa Inov Contacto, deu-me recentemente a oportunidade de me deslocar até um enorme e díspar país da América Central, o México.

Encontro-me então na Cidade do México desde o início do ano a trabalhar numa agência de marketing digital, na qual crio e faço a gestão de campanhas no Google AdWords para as Américas. Por muito que goste do que faço não vou maçar o caro leitor com questões relacionadas com keywords, extensões de anúncios, taxa de cliques ou conversões.

O México é um país culturalmente riquíssimo, de uma beleza extraordinária, com um povo muito acolhedor, mas é também uma nação de contrates, de sociais a climáticos, e de problemas políticos e de segurança graves. Apenas tive a oportunidade de estar em 6 dos 31 estados mexicanos – à hora que lhes escrevo preparo-me para ir conhecer o sétimo, Quintana Roo – e apesar de todas as diferenças há um elemento em comum em todos eles: a amabilidade e abertura por parte das pessoas.

Viver na Cidade do México é uma experiência incrível, capaz do melhor e do pior. Vivem cá cerca de 20 milhões de pessoas, coisa pouca, e o crescimento da cidade claramente não foi planeado. Há um desrespeito estúpido pelas regras de trânsito, pois cá não há aulas de código ou condução, e atravessar uma passadeira é um desafio enorme! A cidade não descansa e o seu ritmo, aliado com a altitude, poluição e desordenamento, deixam qualquer um de rastos. Em condições normais é impossível circular de carro em horas de ponta – utilizo bicicleta ou metro (alguém falou em caos?) – mas quando chove a situação atinge o impensável. Já me aconteceu mais que uma vez ter de esperar uma a duas horas para sair do escritório porque as estradas se transformaram em autênticos rios.

No entanto, a cidade compensa largamente com outras questões, nomeadamente a nível cultural e social. Rezam as crónicas que é a cidade do mundo com mais museus e desde que cá estou tenho a sensação (bem real) de que estou constantemente a perder eventos super interessantes – 24h por dia são claramente insuficientes.

A facilidade com que se conhece pessoas novas e se trava amizades facilita imenso a estadia cá. Há uma grande comunidade estrangeira, principalmente na jovem e bonita zona onde vivo, La Condesa. O país é lindo e a nível social é muito interessante de analisar. Qualquer pequena coisa do quotidiano, como uma ida para o trabalho de metro, dava uma rica curta-metragem. Apesar das saudades, naturais, de família e amigos, estou “muy a gusto” e verdadeiramente encantado com o México.

The Crossing

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Estou neste momento a ler The Crossing – My journey to the shattered heart of Syria, um livro em que Samar Yazbek (n. 1974) relata três viagens feitas clandestinamente à Síria entre 2012 e 2013. Samar é uma ativista (sobretudo pela liberdade de expressão e pelos direitos das mulheres e crianças), jornalista e escritora síria forçada ao exílio desde 2011 pelo regime de Bashar al-Assad. A guerra, desencadeada pela agressiva e sangrenta reação de Bashar às manifestações inicialmente pacíficas contra o regime e a favor de um estado democrático, continua a matar e deslocar inocentes todos os dias.

No livro tenho encontrado relatos impressionantes sobre o que Samar foi testemunhando nos seus regressos clandestinos à terra natal, sobretudo relativos ao dia a dia dos cidadãos que têm vindo a lutar ininterruptamente pela sua sobrevivência e para manter vivo o sonho de ter um país livre, democrático e em paz. Relatos que embora a mente se recuse a aceitar como verídicos, num primeiro momento, são autênticos e espelham o sofrimento e a destruição material e imaterial que vigoram no território sírio. Por entre os testemunhos relativos às repugnantes atrocidades cometidas por diferentes atores, Yazbek tem passagens emocionantes, verdadeiramente demonstrativas da bondade humana. Outras representam não só momentos de partilha de cariz mais pessoal como também atestam o estilo da sua escrita, como comprova o seguinte excerto, referente à segunda passagem da escritora da Turquia para a Síria através das montanhas Reyhanli.

“Of our band of twenty, I was the only woman. Three traffickers accompanied us, and among the men who had just arrived I noticed the Yemeni and the Saudi who had been on my flight from Istanbul to Antakya. They looked ready for action. I moved towards them, keeping a cautious distance away, still hoping to eavesdrop on their conversation. For a moment I wondered about saying something to them, like, ‘What are you doing in my country?’ but I remained silent. The past two years had taught me to keep quiet. Silence in an opportunity to give meaning to the things around us, to watch and reflect. It gives things the chance to express themselves; even if it’s not without ambiguity, silence often creates the space for meaning to emerge.”

Hey, that’s no way to say goodbye

cohenleonard

Hineni, hineni
I’m ready, my lord.

O poeta, escritor, compositor e cantor canadiano (n. 1934) deixou-nos fisicamente esta semana, com uns bonitos 82 anos de idade. Passou os últimos tempos de forma calma na sua casa em LA, ainda a escrever e com a consciência de que tinha recentemente concluído um dos seus melhores álbuns, You Want it Darker. Apesar de ter declarado no mês passado que estava pronto para morrer, não há boas formas de dizer adeus.

So long Mr. Cohen.

Shut up kiss me

A Angel Olsen passou ontem pelo programa do Stephen Colbert, onde apresentou Shut Up Kiss Me. A música faz parte do álbum My Woman, que sai no final desta semana. A julgar pela amostra, não só pela música em si mas também pelo vídeo que anda por aí desde final de junho, a norte-americana terá alargado horizontes e o novo álbum poderá ser uma agradável surpresa.